terça-feira, 1 de julho de 2008

Entrevista com o médico, Clínico Geral, Dr. Cyro Martins, sobre a profilaxia e métodos para combater a Anorexia Nervosa e a Bulimia Nervosa:


Pergunta: - Dr.Cyro, quais os fatores determinantes que diferenciam a Anorexia da Bulimia?

Resposta: A Anorexia Nervosa e a Bulimia Nervosa são caracterizadas por distúrbios graves do comportamento alimentar. A principal característica da Anorexia é a recusa em manter um peso corporal mínimo normal. A Bulimia é caracterizada por episódios recorrentes de libação alimentar (comer exageradamente), seguidos de comportamento alimentar compensatório, tais como vômitos auto-induzidos. Apesar das características diferentes, as duas patologias apresentam características comuns: ambas costumam ocorrer em mulheres jovens e previamente saudáveis, que desenvolvem preocupação exagerada com a forma e o peso corporal. No critério diagnóstico, a distinção entre Anorexia e Bulimia é baseada no peso corporal: pacientes anoréxicos têm, por definição, peso corporal excessivamente baixo, enquanto pacientes bulímicos possuem peso corporal na faixa normal ou acima do normal.


Pergunta: - Quais os métodos aplicáveis para a recuperação do paciente anoréxico ou bulímico?

Resposta: - O tratamento inicial do paciente anoréxico envolve uma avaliação da necessidade de internação, pois, algumas vezes, existem problemas médicos associados (e decorrentes de perda de massa corporal), que comprometem gravemente a saúde do paciente, determinando a necessidade de acompanhamento hospitalar (suporte nutricional, correção de desequilíbrios eletrolíticos, entre outros). Uma vez determinada a possibilidade de tratamento ambulatorial, inicia-se a abordagem psiquiátrica, que envolve dois aspectos: primeiro, o suporte emocional durante o período de ganho de peso. Os pacientes concordam com a necessidade de correção do peso corporal, mas resistem ao aumento da carga calórica. Em segundo lugar, é preciso que os pacientes aprendam a basear sua auto-estima, não em atingir um peso corporal impropriadamente baixo, mas sim no desenvolvimento de relações pessoais satisfatórias, e em alcançar objetivos acadêmicos e ocupacionais razoáveis.
O tratamento da Bulimia é realizado geralmente em nível ambulatorial. A Terapia Cognitivo-comportamental é um tratamento psicológico de curto prazo (4 a 6 meses), focado na preocupação interna do paciente com seu peso e forma corporal, na persistência de dietas e libações alimentares e vômitos induzidos característicos do problema (o índice de remissão, nesta forma de terapia, é da ordem de 25 a 50%).



Pergunta: - Os antidepressivos tricíclicos, os ISRSs e os OMAOs têm eficácia necessária para alívio dos sintomas?

Resposta: - No caso da Anorexia, parece não haver valor no uso de substâncias psicotrópicas. O uso de antidepressivos tricíclicos está contra-indicado em pacientes com distúrbios cardíacos associados com prolongamento do intervalo QTc no eletrocardiograma.
A Bulimia parece responder melhor ao tratamento com Terapia Cognitivo-comportamental. O único antidepressivo aprovado para o uso na Bulimia é a Fluoxetina (do grupo dos inibidores da recaptação da serotonina). Ele é utilizado em uma dose maior do que no tratamento da depressão (60 mg/dia), sugerindo que mecanismos subjacentes diferentes possam estar envolvidos na utilidade desses medicamentos na Bulimia e na depressão.


Pergunta: - Esses transtornos podem desencadear doenças físicas e emocionais mais graves?

Resposta: - Alguns pacientes com Anorexia Nervosa podem desenvolver sintomas emocionais e comportamentais mais graves, como: depressão, automutilação, comportamento obsessivo-compulsivo e idéias suicidas. Complicações médicas importantes podem ocorrer, tais como: desnutrição, disfunções endócrinas e metabólicas (alterações da função tireoidiana e da supra-renal), bem como decorrentes da realimentação (dilatação gástrica aguda, edema, retenção hídrica e disfunções renal e hepática).
A Bulimia pode também desencadear problemas psiquiátricos e clínicos adicionais, porém em menor grau que na Anorexia.


Pergunta: - Qual a causa da depressão na Anorexia/Bulimia?

Resposta: Não se determina com facilidade por que determinados pacientes evoluem com formas mais graves de depressão e outros estados patológicos psiquiátricos, enquanto outros conseguem um controle do quadro com menor nível de dificuldade. Entretanto, uma disfunção psicológica importante afeta todos os pacientes com distúrbios alimentares.


- Dr. Cyro, deixe aqui a sua mensagem para os portadores de Anorexia/Bulimia.
- Em um momento que se valoriza cada vez mais o corpo, não como forma de manter-se saudável, mas como um produto a ser adquirido, é cada vez mais comum o desenvolvimento de comportamentos inadequados do ponto de vista alimentar. Abundam, na imprensa, as notícias de agências famosas no Brasil e no mundo com graves problemas de saúde e, até mesmo, com casos de morte decorrente de Anorexia Nervosa. Como boa notícia nesse mar de problemas, há que se louvar a atitude da Espanha que, ao determinar um nível mínimo de índice de massa corporal para as modelos desfilarem em seu território, contribui para diminuir o impacto desses distúrbios na saúde (ao menos entre profissionais que valorizam excessivamente a forma corporal).
Acho importante que, como primeiro passo para o sucesso terapêutico, os pacientes devem reconhecer seu problema para se engajarem na luta pela recuperação de sua saúde.
Atualmente, para aqueles que possuem amigos ou outros entes queridos, vivendo esse problema, sugiro que dêem sempre apoio e carinho, e não o considerem como uma falha de caráter, estigmatizando o portador. Os distúrbios alimentares são tipos de doença, e que têm cura; os pacientes merecem ser tratados e voltar a viver de forma saudável.




Entrevista sobre o Transtorno do Pânico com o especialista Dr. Fernando Mineiro de Belo Horizonte/MG:


Pergunta: - Dr. Fernando, o que causa o Transtorno do Pânico? E por que ele ocorre?

Resposta: - O Transtorno do Pânico é um distúrbio químico, genético e recorrente. Devido a uma complicação no cromossomo 15, formam-se determinadas proteínas que se agregam ao neurotransmissor serotonina, ocasionando a sua recaptação pelo neurônio de origem. Essa recaptação aciona as amígdalas cerebrais ocasionando as crises. A função dos antidepressivos é bloquear o retorno da serotonina, funcionando como um agente tampão. Este estudo foi realizado em uma universidade da Espanha. Estudo semelhante foi realizado pela UFMG em Belo Horizonte. Chegou-se à mesma conclusão. O cromossomo estudado aqui foi o de nº 11. Nessa pesquisa, constatou-se que os portadores tinham baixa concentração do aminoácido triptofano, o precursor da serotonina



Pergunta: - Existe algum mecanismo de prevenção e cura do transtorno do Pânico?

Resposta: - A primeira crise em pessoas predispostas geneticamente ao Transtorno do Pânico, é motivada por situações estresse ou tensão constante, perda de suporte social ou familiar. Par evitar que ele ecloda, devem-se evitar essas situações, nem sempre possíveis. Manter o nível de triptofano equilibrado é uma boa indicação, pois, em baixa, pode funcionar como gatilho para a eclosão da primeira crise. As próximas crises não necessitam de fatores que a justifiquem, mas podem contribuir.



Pergunta: - Quais os métodos empregados para o alívio nas aflições do pânico?

Resposta: - Além dos antidepressivos e ansiolíticos, exercícios de respiração diafragmática, relaxamento autógeno, caminhadas para se ter o benefício das endorfinas, alimentação de fácil digestão e levar uma vida light. A Terapia Cognitivo-comportamental ajuda muito, principalmente no caso de agorafobia.



Pergunta: - Qual a diferença entre Transtorno do Pânico e Ansiedade Patológica?

Resposta: - A característica principal do portador do Transtorno do Pânico é ter crises sem motivos que as justifiquem, podendo passar um bom período sem que elas se manifestem. Já na Ansiedade Generalizada (Patológica), o portador se mantém sempre ansioso, independente de ter ou não situações estressantes. Ambos estão relacionados à transmissão dos neurotransmissores.


Pergunta: - Os medicamentos antidepressivos e ansiolíticos são eficazes para o tratamento do Pânico?

Resposta: Conseguem bloquear as crises após tratamentos por um período de a 1 a 2 anos, porém, não garantem a cura definitiva.O máximo que o portador consegue é a fase de controle, sem crises, sem medicamentos, porém com sintomas isolados.


- Dr. Fernando, deixe aqui sua mensagem aos portadores do Pânico:

-Vivam um dia de cada vez.Esqueçam o ontem, ele não pode ser alterado.Viva somente o dia de hoje, principalmente o aqui e agora.Só pense no amanhã quando ele se tornar hoje.